ABRINDO ARMÁRIOS
Maria Rita Lemos
Nossas emoções ficam quietinhas, quando adormecidas em nosso armário interior, mas não morrem. Nada do que somos, fazemos ou pensamos tem sentido se não estiver permeado das emoções que acompanham as ações. Muito antes de Daniel Goleman escrever sobre “Inteligência Emocional”, o papel das emoções na vidas das pessoas sempre ficou muito claro, mesmo que aquilo que mostramos seja apenas a ponta de um “icebererg”, tratando-se de sensações contidas, trancadas no armário. Até os santos e grandes pensadores conhecem a força desses impulsos indomáveis, e procuram administrá-los através da vida de oração ou da sublimação a outras causas. Enfim, definir qualquer variável humana é impossível sem considerar a realidade das emoções, tão decantada por filósofos, romancistas e poetas, de todos os tempos e nações. Apesar de tudo, as mesmas emoções continuam a ser um grande mistério em nossas vidas. Nas pessoas mental e afetivamente sadias, os sentimentos e pensamentos caminham lado a lado, refletindo a unidade de sua personalidade. Já no caso de indivíduos que trazem problemas em sua vida psíquica, pensamentos e sentimentos opõem-se uns aos outros, principalmente nas regiões onde os conflitos são mais agudos. “A esquizofrenia é caracterizada, principalmente, pela dissociação entre o pensamento e o sentimento”, segundo Alexander Lowen, fundador da análise Bioenergética. Esse autor, discípulo de Wilhelm Reich, estudou profundamente a personalidade e seus reflexos sobre posturas corporais e doenças somáticas. Analisando a respiração e os efeitos do movimento na expressão das emoções, Lowen criou o conceito de “grounding” (centrar-se, permanecer ligado ao chão). Em seguida, mostrou a importância das atividades físicas e recreativas para se restabelecer a ligação entre mente e corpo. Para Lowen, que era também psiquiatra, a queixa básica das pessoas estava na insatisfação e na incapacidade de experimentarem alegria e prazer na vivência do dia a dia. Isso acontece, segundo ele, pela dificuldade que temos de estabelecer contato com nossas tensões crônicas, que por sua vez bloqueiam a auto-expressão. Ainda no início do século XX, Lowen proferiu a famosa frase, que talvez continue com a resposta negativa: “Será que os americanos, apesar de gastarem tanto dinheiro e tantas horas vagas em busca do prazer, aproveitam realmente a vida?” A resposta, infelizmente, passado um século, talvez ainda seja negativa. Tal como na época em que Lowen fez esta pergunta, a obsessão pelo divertimento, não só entre os americanos como na maioria dos povos, surge da necessidade de fugir aos problemas e escapar da sensação de tédio e vazio em que vivemos. O estresse está associado ao bloqueio de emoções, e fazem parte do bloqueio geral que fazemos dos nossos processos psicológicos, tanto na vivência doméstica, como na social e individual. Há um pensamento quase universal de que não podemos mostrar “as fraquezas”, e em nome disso nos negamos o direito a expressar emoções naturalíssimas como raiva, luto, tristeza, saudade, medo... e até a alegria. Reich e Lowen chamaram essas defesas de “armaduras emocionais”ou “couraças”, e provaram que elas são criadas em nós desde a mais tenra infância, e se desenvolvem durante a vida, como respostas a ambientes nos quais não somos totalmente aceitos. Criamos barreiras para segurar as emoções, da mesma forma que erguem-se comportas para deter um rio, e esses obstáculos são tão fortes que afetam até a postura corporal. Por exemplo, ombros erguidos e tensos traduzem medo; a hiperatividade, tanto motora quanto verbal pode significar ansiedade e insegurança. O corpo, retendo emoções, gera regiões dolorosas, acompanhadas de culpa, ansiedade e vergonha. Essa “couraça” (termo de Reich) impede o fluir do prazer legítimo, que só pode acontecer se o corpo estiver descontraído, bem como dificulta a intimidade e a alegria natural. Em casos assim, no consultório, é necessário retomar o reforço da base estrutural da pessoa, trabalhando com exercícios respiratórios, de contato com o chão e sugestionamento, a partir do psicoterapeuta, para desbloquear as tensões e melhorar a auto-estima. Quando conseguimos superar os fantasmas, e abrimos para arejar os armários interiores, sobra espaço para os prazeres, ainda que pequenos, como sentir que a vida é bela, sorrir a cada amanhecer. Saber administrar e expressar as emoções nos torna senhores de nós mesmos.
MARIA RITA LEMOS É PSICÓLOGA E ASSINA AOS DOMINGOS ESTA COLUNA. FONE PARA CONTATO: (19) 3452.3332. Email: mariarita@gazetadelimeira.com.br Na Internet: http://geocities.yahoo.com.br/palavra_de_mulher

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